O sertanejo quer seduzir a favela? Como ‘Alphaville Alphavela’, de Munhoz e Mariano, simboliza este movimento

‘Reggaenejo’ tem letra com sertanejo na pele de morador de favela, logo após dueto com MC Jerry. Faixa remete à aproximação do estilo com público de periferias urbanas; leia análise.

Munhoz e Mariano, dupla de “Camaro Amarelo”, lançou nesta sexta-feira (19) no Spotify, uma música que simboliza um movimento atual de sertanejos para ganhar terreno nas periferias urbanas.

“Alphaville Alphavela”  narra um caso de amor entre jovens de favela e de um condomínio rico – com referência ao bairro de classe alta de Barueri (SP).

“Quando batia a vontade de se ver / Era CPF, CNH e RG / Nem a segurança armada segurava eu e ela / O amor não tem fronteira / E o coração não tem cancela (…) Tá aqui a prova eu e ela / Ela Alphaville e eu Alphavela”.

Não é todo dia que a gente escuta um sertanejo cantar sobre favela (e ainda mais assumindo o personagem “favelado”).

E isso em um momento em que sertanejos flertam com o estilo musical que domina o outro lado dos muros de condomínio (e cada vez mais o lado rico também): o funk.

A música anterior da dupla foi “Mulherão da porra”, com o MC Jerry Smith, do funk “Bumbum granada”. Este funknejo não é caso isolado: várias duplas e cantores procuram funkeiros para parcerias. João Neto & Frederico, por exemplo, voltaram às paradas ao cantar com Kevinho.

Terreno a conquistar

O sertanejo domina quase totalmente os rankings de rádios pelo Brasil. Mas nas paradas da internet, cada vez mais importantes, não é a mesma coisa. A maior concorrência nacional é o funk. No novo mercado, o sertanejo tem um grande terreno não conquistado.

“Alphaville Alphavela”, no entanto, não é funk. É um “reggaenejo”, com arranjo bem insípido, que lembra Matheus e Kauan, e ainda brinca com “modão de raiz”. Dá para tocar fácil em boates de classe média e festas do interior. Não é que eles se esqueceram dos antigos fãs.

O flerte com um público diferente, neste caso, é na letra mesmo. Dá para lembrar hits passados como “Humilde residência”, de Michel Teló, em que o narrador tem orgulho de sua casa pobre – mas não chega a falar de “favela”.

Yuri Martins, maior produtor atual de funk (assina três das cinco músicas mais tocadas no Spotify Brasil hoje – “Vai malandra”, “Amar amei” e “Agora vai sentar) disse ao G1 sobre o funknejo:

“O sertanejo pode aprender com o funk a atingir o público ‘de raiz’. Porque às vezes o sertanejo faz muita música para o pessoal que tem dinheiro, o público ‘boy’. Mas esquece que o público da comunidade também quer ouvir o sertanejo que fala a verdade. Acho que isso está acontecendo. O sertanejo vai atrás do funk porque quer atingir a comunidade”, opina Yuri.

Já Frederico, da dupla com João Neto, falou sobre o sucesso com MC Kevinho:

‘Quem paga ingresso é o povo.’ O mercado partiu para esse lado. Se a gente não partir também, vai vender show para quem?”

O movimento pode ir além de “ganhar o público da favela”. É claro que os fãs de funk não estão só nas periferias – vide MC Jerry, que faz shows em boate “classe A” e na “quebrada” na mesma noite.

Favela e além

Conquistar a “Aphavella” pode ser um jeito de se renovar e ganhar ouvintes de todas as classes sociais, que aceitam cada vez mais a estética que o funk domina.

Que o diga Anitta, que há muito tempo era “ex-funkeira”, e agora se jogou de novo na favela em parceria com MC Zaac (parceiro de Jerry em “Bumbum granada”) e Yuri Martins, em “Vai Malandra”.

Pode ser que “Alphaville Alphavela” não vá a lugar nenhum: “Mulherão da porra” tem mais pegada. Mas a letra ficará marcada como curiosa lembrança, intencional ou não, da época em que o sertanejo bateu na porta da favela.

Fonte: https://g1.globo.com/